Quando mais uma pizza parecia estar sendo servida, Eduardo Suplicy rouba a cena e representa toda a população indignada com a situação do senado e a presença de José Sarney.

Suplicy X Sarney
Por Vinícius Lepore
Ontem o senador José Sarney resolveu proclamar para um plenário com cinco senadores seu retorno após o aparente fim da crise. Não falava desde a semana passada, quando foram arquivadas as 11 acusações contra ele no Conselho de É-T-I-C-A!
O movimento “Fora Sarney” já tomou as ruas das principais cidades do Brasil e movimenta a Internet. O Twitter /forasarney conta com 11,651 seguidores. O Orkut apresenta mais de 200 comunidades relacionadas ao termo. Entretanto, ninguém parecia poder chegar até ele e dizer isso. Nem o presidente Lula. Por quê? Estaríamos disfarçando uma ditadura com uma falsa idéia de democracia? Ou realmente a política e a ética evoluíram tanto que resultaram numa versão ditadora aonde, enquanto centenas de milhares de pessoas pedem explicações, uma velha raposa se fingia de surda enquanto homenageava Euclides da Cunha e Getúlio Vargas.

Sarney resolveu falar sobre Euclides da Cunha e Getulio Vargas.
Eduardo Suplicy ocupava uma das cinco cadeiras utilizadas no plenário. Num total de 81 cadeiras presentes, três representando cada estado brasileiro, o paulista, petista e pai do Supla, não se contentou em aparecer. Leitor de Euclides da Cunha e formado na Faculdade Getúlio Vargas, Suplicy falou pelo povo.
O site do jornal da família do ex-presidente da República fica hospedado na página da Globo. Não é possível ler nenhuma das matérias em destaque no dia, como “Vargas e Euclides da Cunha homenageados”: somente assinantes tem acesso ao conteúdo dá página. Há informações sobre o público leitor do caderno de política: “50% pertencem às classes A/B e 14% têm renda superior a 20 salários mínimos”. O índice de analfabetismo no Maranhão é de 22,8% .
Suplicy disse ‘Fora Sarney!’ com a categoria de quem prefere ouvir Bob Dylan a controlar rádios. Interrompeu o discurso do intocável e falou pelos cidadãos.”Senador José Sarney, a situação do Senado Federal não está tranqüila, não está resolvida. As pessoas desejam um esclarecimento mais cabal, que as dúvidas sejam esclarecidas. A solução não está bem resolvida. O arquivamento das representações não significou que nós tenhamos resolvidos os problemas do Senado”.
Falou muito mais. Sem se importar em não ter ao seu lado o presidente da República, nem líderes do seu partido. Nem de outros partidos. Nenhuma voz, além da sua própria voz, disse na cara de Sarney aquilo que o país queria, com as palavras que nenhum outro político ousou dizer.
Sarney ainda se viu no direito de ofender-se por Suplicy tê-lo interrompido. “Tomado por tamanha visão política Vossa Excelência deixa de respeitar as regras mais comezinhas do dia a dia da Casa”.
Eduardo Suplicy é o único homem a ter a lucidez de representar o povo sabendo que esta é a função de um senador. Sem ter medos de rixas ou quebras de acordos. Secretos ou não. Bastou a verdade numa linguagem mais simples, sem recorrer a Euclides da Cunha ou a Bob Dylan, para dar uma esperança a população.